domingo, 25 de julho de 2010

EDIÇÃO DO AUTOR


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Contato: niltonjlopes@hotmail.com


Revisão: Maria Zilda de Carvalho Lopes


ISBN 277526
Lopes, Nilton José
Sequestro em S. Paulo
Romance policial
128 p.; 14 x 21



SEQUESTRO
EM
SÃO PAULO

NILTON JOSÉ LOPES


O gordo homem caminhou pela borda da piscina e, resmungando, foi sentar-se
na cadeira de vime suspensa de uma armação de ferro, no outro lado, numa sombra refrescante. Enxugou a testa com a palma da mão e ficou olhando os reflexos do sol ardente na água.
Num plano inferior, lá quase na entrada, as folhas do grande ipê estavam imóveis, atestando que o ar parado e quente ia tornar o dia sufocante mais tarde. O panorama era, sem dúvida, de uma beleza esplendorosa, onde cores e formas harmonizavam-se e, apesar de uma platéia rala e desinteressada, oferecia aquele espetáculo matutino.
Bem no meio do gramado que se estendia até os ciprestes que guarneciam as fronteiras daquele paraíso, brotava a casa alta e bela como um guardião da natureza a seu redor. As madeiras envernizadas davam-lhe um toque de nobreza e os vidros destacavam-se das paredes bancas, como olhos reluzentes.
O administrador, agora quase cochilando, não saberia explicar mas sentia que naquela manhã havia um silêncio diferente, estranho.
Era como se uma sombra deslizasse por ali cobrindo tudo com um medo opressivo. Tudo em volta parecia aguardar algo.
__ Seu João !
O grito despertou-o bruscamente de sua letargia.Era Izaura que caminhava na sua direção, trazendo na mão direita qualquer coisa parecida com um envelope, enquanto a mão esquerda se ocupava em transportar a inseparável vassoura.
__ Seu João, eu estava varrendo lá perto da entrada, ali perto da estátua do anãozinho, e vi, então, esta coisa enfiada dentro de um cipreste e achei que devia trazer pro senhor ver.
__ Dá cá, Izaura, deixa ver...Ave Maria , que coisa mais estranha! Quem será que colocou lá? Os entregadores de carta sempre apertam a campainha!
__ Pois é, Seu João, vai ver que é algum carteiro novo que ficou com preguiça de ficar esperando ser atendido e enfiou isso lá no cipreste do lado de fora mesmo...
__ É... pode ser!... Vamos ver o que tá escrito aqui. Você pode continuar o seu serviço, Izaura!
O administrador voltou a examinar o conteúdo de suas mãos. Era um envelope, desses tipo “oficio”, no qual havia sido escrito em letras maiúsculas e vermelhas, o nome do destinatário. Havia, também, a inscrição sublinhada, que dizia: “Confidencial”
O envelope tinha sido cuidadosamente colocado em um saquinho plástico.
O velho administrador, acostumado a fielmente defender os interesses da família, tentava, por todas as maneiras, coordenar as suas idéias a respeito daquela estranha aparição. Seu instinto dizia-lhe que algo estava por acontecer e, enquanto ruminava suas idéias, resmungava, como era de seu hábito. Achou que seria mais conveniente não mexer no pequeno invólucro e entregá-lo a dona Ester do jeito que fora encontrado. Levantou-se vagarosamente da cadeira, dirigiu-se com a costumeira pachorra em direção à entrada da casa. Subiu, pausadamente, degrau por degrau e ei-lo finalmente defronte da porta da biblioteca, onde costumava encerrar-se a patroa quando estava em casa. Bateu dois toques leves.
__ Dona Ester, a Izaura quando varria lá perto da entrada, achou esta carta enfiada perto do portão. Achei melhor entregar-lhe pessoalmente e não comentar com ninguém.
__ Por quê?
Os olhos estavam cravados nele.
__ Porque é uma maneira muito estranha de chegar uma carta aqui.Inda mais embrulhada assim, num plástico...
Depositou a carta na mão que lhe era estendida.Fez menção de retirar-se.
__ Espere, João!
Manipulou a carta, examinou um lado, depois o outro,decidiu abri-la.
__ Do lado de fora do portão dá para colocar uma carta no cipreste,João?
__ Dá sim, senhora. O cipreste é bem chegadinho no portão.
Ela abriu, em silêncio, o saquinho plástico. No destinatária lia-se em letras vermelhas e grandes: ‘Familia Gomes – Confidencial”
O rosto, antes aparentemente tranquilo, transfigurou-se de repente. Os sobrolhos cerraram-se, a boca ficou mais apertada e a suspeita de que algo estava por acontecer tomou conta dela. Desde a noite anterior estava com essa estranha sensação. Virou-se para a janela e olhou o envelope contra o sol, tentando descobrir o que continha. Rasgou um dos lados e de dentro caiu sobre a mesa uma cédula de identidade. A foto do Gomes, seu marido, parecia fitá-la de dentro do invólucro de plástico da pequena cédula. Apanhou a cédula para certificar-se de que era realmente do marido. Confirmado! Era realmente do Gomes.
Retirou o papel de dentro do envelope e leu. O texto não tinha formalidade nenhuma. Não era exatamente uma carta. Mais parecia uma sentença. Dizia o seguinte:

1º - O refém está em perfeitas condições físicas, o que perdurará, enquanto forem seguidas, à risca, as instruções.
2º - Não temos idealismo político e não fazemos negociações. Este é o único aviso.
3º - A publicidade em torno do seqüestro deve ser deixada para depois de terem recebido de volta o refém. Qualquer comentário será causa suficiente parta o cancelamento da operação, com a conseqüente eliminação do refém.
4º - O refém somente será liberado após constatarmos que não houve mínima falha no plano (o que dependerá, em grande parte, do seu bom senso, cautela e, sobretudo, calma) e também após constatarmos que o numerário atende as nossas medidas de segurança, tomando para tanto o tempo que nos for necessário e usando de elementos e métodos especiais que poderão culminar com a eliminação instantânea do refém, no caso de havermos sido enganados.
5º - Ao receberem este aviso, se tomarem a medida que normalmente se toma em tais casos, fatalmente denunciar-se-ão.
6º - Ao concordar em pagar o resgate, coloquem anúncio no jornal “São Paulo”, nos seguintes termos: “ Para os nascidos no mês de Dezembro, o jantar está servido”.
Seguiremos edições de três dias, após os quais, em caso negativo, cancelaremos a operação.
7º - O valor do resgate é de R$ 10.000.000,00 que poderão ser pagos tendo como portador pessoa da família, em notas não seriadas, acondicionadas em menor volume possível dentro de uma maleta, de acordo com instruções abaixo. Não apanharemos o resgate se notarmos algo de estranho em qualquer sentido, tendo como conseqüência o cancelamento da operação.
8º - Esteja com a importância em local, data e hora a serem fixados , que será apanhada por elemento que está sendo pago unicamente para apanhá-la e desconhece o plano e seus mentores, o qual se defrontar-se com situações de antemão identificadas como adversas, tem instrução de sinalizar-nos utilizando-se de um método especial sendo que, com tal movimento, inconscientemente, privar-se-á da própria vida. Em tal hipótese cancelaremos a operação.


O olhar da mulher estava agora parado sobre o texto à sua frente, sem estar dirigido para palavra alguma. O rosto lívido, a boca entreaberta, a cabeça curvada sobre o peito, os braços deixados sobre a mesa.
No íntimo sentia vontade de gritar, esbravejar, agredir tudo que encontrasse pela frente. Não podia aceitar a condição de vítima indefesa.
Mas, do outro lado estava a vida do Gomes. Aquele papel à sua frente podia ser a sua sentença de morte. Ela própria nunca dera o devido valor ao seu relacionamento com o Gomes mas, naquelas circunstâncias, descobrira o que realmente sentia por ele.
Bastou um olhada nas condições que lhe impuseram para, como mulher inteligente que era, perceber que não tinha alternativa. Ergueu novamente a cabeça, instintivamente ajeitou os cabelos e ficou ali sentada por alguns momentos contemplando a cena à sua frente. Aquele maldito papel branco, portador daquelas humilhantes condições, estava investido do poder sobre a vida e a morte de seu marido.
Sentiu uma fadiga inexplicável como se tivesse passado a noite e a manhã inteiras a caminhar. Levou um tremendo susto quando ouviu o interfone.
__ Dona Ester, o almoço está servido; ou a senhora prefere almoçar na biblioteca?...
__ Não, Durval. Não vou almoçar.
Apanhou a carta e meteu-a novamente dentro do envelope. O plástico que envolvia o envelope, destinou- o ao cesto de lixo.
Subitamente lembrou-se :
__ E se a polícia necessitar deste plástico ?...
Retirou-o do cesto e resmungou para si mesma:
__ Oh, meu Deus, Eu nem sei de vou procurar a polícia...
Colocou tudo dentro da gaveta e trancou. Apertou o interfone e ditou:
__ Durval, chame o Dr. Martinho.
__ Sim,senhora.
Dirigiu-se a seu quarto, tendo por duas vezes que se apoiar na parede do corredor, para não cair. Sentia ânsias de vômito, a boca amargava como fel e a cabeça parecia que ia estourar. Mal alcançou a cama, deixou-se cair nela pesadamente e puxou o cobertor. Sentia calafrios por todo o corpo. Não conseguia absolutamente coordenar as idéias.




O carro do Dr. Martinho aproximou-se lentamente e estacionou, como sempre, junto ao ipê.
O médico caminhou tranquilamente pelo belo jardim e sentou-se ao lado do gordo João que expunha-se ao sol como um jacaré.
__ Então, João, quais as novidades?
__ Novidade nenhuma não, doutor. Aqui tudo é parado.
__ A Ester mandou me chamar.Ela está doente?
__ É... Durval me disse que ela nem quis almoçar.
O médico permaneceu calado durante alguns momentos, depois olhou para o relógio e dirigiu-se para a entrada da casa. Quando entrou no quarto, dona Ester já havia recobrado bastante de sua habitual serenidade mas apresentava ainda uma fisionomia bem abatida.
__ Boa tarde, Ester. O que houve?
A mulher passou as mãos pelo rosto e soltou um suspiro.
__ Uma desgraça, Martinho, uma desgraça! Certas coisas acontecem na vida da gente como um tufão...passam, arrasam tudo, depois vão embora e deixam-nos a apreciar os destroços.
O médico olhava para ela com interesse e curiosidade.Percebeu logo que algo grave havia ocorrido, porque aquela mulher não era dada a teatralismo e, além disso, era preciso um impacto muito grande para prostrá-la naquele estado.
__ Você já tomou alguma coisa, Ester?
__ Só um comprimido para dor de cabeça, que estava insuportável
Tomou-lhe a pressão e fez uma careta com o resultado.
__ Vou dar-lhe um calmante. Você vai dormir um pouco.Se você quiser confiar-me o seu problema, posso tentar ajudá-la. Asseguro-lhe, porém, que, na sua situação, você não tem condições de resolver problema algum.
__ Foi mais para isso mesmo que eu o chamei aqui, Martinho. Eu preciso de sua ajuda e nós vamos ter que agir rápido e com muita cautela.
__ De que se trata? __ Perguntou o médico.
__ Martinho, eu vou tentar explicar, em poucas palavras, o que houve. Ontem, um pouco antes do jantar, recebi um telefonema do Gomes avisando que não vinha para casa porque iria a Campinas resolver negócios. Sabe como é o Gomes...ele nunca explica direito.
Pois bem, hoje, pela manhã, o João me aparece com uma carta, dizendo tê-la encontrado perto do portão de entrada, no cipreste. Quando abro o envelope, dou de cara com a cédula de identidade do Gomes e uma carta, ou melhor, uma intimação que aqui está e quero que você leia e me ajude a encontrar uma solução porque eu simplesmente não sei o que fazer.
Passou o envelope para as mãos do médico e ficou olhando-o em silêncio enquanto lia.
Quando terminou de ler, tendo ainda o papel diante de si, o médico exclamou:
__ Que barbaridade! Isto é o cúmulo!
Dona Ester, agora recostada no travesseiro, manifestava-se cada vezmais nervosa. Mantinha um braço cruzado sobre o peito, enquanto que, com a outra mão, não parava de comprimir os lábios entre o polegar e o indicador. Corria o olhar por toda a sala, como uma desvairada, sem olhar para nada.
O médico retirou de dentro de uma valise uma seringa e uma ampola com um líquido amarelado e foi lhe injetando rapidamente.
__ Não vai demorar muito e você vai dormir, Ester. Deixa esse caso comigo.
Diante dessas palavras, acalmou-se um pouco. Aquele homem era amigo íntimo da família há muito tempo e dona Ester sentiu-se mais segura sabendo ter ao lado uma mente empenhada na solução daquele caso, uma vez que a sua, pelo menos no momento, não conseguia coordenar nada. Ajeitou o travesseiro, apoiou nele a cabeça, puxou o cobertor até o pescoço e, pouco a pouco, viu desvanecer-se a figura do médico num vulto branco e amorfo. Havia dormido.
O médico sabia agora que a rapidez era essencial e saiu apressadamente. Atravessou o jardim em direção ao carro e encontrou o João no mesmo lugar que o deixara minutos antes. Sem mesmo parar de andar, ditou-lhe:
__ João, a Ester está dormindo agora. Mais tarde mande preparar-lhe uma refeição leve.
__ Não é nada grave não, dr.?
__ Oh não, é coisa a tôa. Passa logo. Mas evite comentários, ouviu?
O carro afastou mais depressa do que normalmente costumava andar.
Enquanto dirigia, o dr. Martinho procurava lembrar de alguém que pudesse ajudá-lo a elaborar um plano de ação. Sabia, entretanto, que a responsabilidade que tomara a seu encargo era enorme. Afinal, era a vida do amigo que estava em jogo. Qualquer deslize de sua parte, qualquer atitude incauta, poderia ser fatal. Sabia perfeitamente que ainda não deveria levar o caso oficialmente ao conhecimento da polícia, pois existia a hipótese de elemento ou elementos da polícia estarem envolvidos e não se poderia prever a reação deles se tomassem conhecimento das investigações.
O sinal estava vermelho. Parou, conservando a mão direita sobre a bola do câmbio, enquanto o braço esquerdo era apoiado na porta. A cabeça fervilhava de idéias...
Verde! Engrenou e saiu. Deu um leve tapa com a palma da mão no volante, manifestando uma certa impaciência.
__ É...__ pensou. __ É um caso extremamente melindroso. Vou ter que apelar para um cara que esteja afeito a essas coisas, para que ele me ajude a analisar essas condições e decidir se compensa ou não procurar a polícia. Talvez o mais sensato seja levantar o dinheiro, pagar o resgate e esquecer o assunto.
Quanto eles haviam pedido mesmo?... Ah sim, dez milhões!
Pelo amor de Deus... levantar dez milhões em três dias! Esses caras são paranóicos! Não se tem mais segurança atualmente. Não se pode sair de casa tranqüilo. Sabe-se lá se volta
Ia assim remoendo suas idéias, quando lembrou-se daquele delegado cujo filho ele fizera tudo para salvar há algum tempo atrás. Lembrou se ainda da expressão de gratidão do homem. Como era mesmo o nome dele? __ pensou __ Ah, sim... Wilson! É isso mesmo...Wilson era o nome do homem...Vou até o hospital e lá me informo de sua localização...Esse Wilson vai me ajudar!...

Entre as pessoas do relacionamento da família existiam elementos bastante capacitados a opinar a respeito e, principalmente, de inteira confiança. Nenhum deles, porém, oferecia condições de analisar o problema sob um prisma técnico e, se existisse uma pequena falha naquele cerco, somente um técnico experimentado seria capaz de localizá-la.
Deveria haver aquela falha... Não existe um crime perfeito! Pagar o resgate, sem maiores investigações seria derrotismo.

Fazia-se mister iniciar outra operação em paralelo...Levantar o valor imposto como resgate. Era uma operação difícil, sem dúvida. Afinal eram dez milhões em três dias!... O primeiro passo seria analisar a situação financeira da família. Quem poderia dar essa informação?... O dr. Augusto, naturalmente!




__Martinho! Que bons ventos o trazem por estas bandas?Você anda sumido, velho! Ou são clientes demais ou dinheiro demais...
O médico ia responder quando foi interrompido em seu intento.
__ Wilma, avisa, por favor, o engenheiro Paulo que eu quero falar com ele.
Ajeitou os óculos sobre o nariz, num gesto rotineiro, apanhou o dr. Martinho pelo braço e levou-o para sua sala, esquecendo um livro sobre a mesa da secretária.
__ Chega pra cá, velhote. Que é que você ia me dizer, mesmo?
__ Você estava me perguntando que bons ventos me trouxeram aqui mas posso adiantar–lhe que o que me traz é mais uma tempestade, viu, Augusto!
__ Não diga, Martinho. Então as coisas estão pretas,é? Qual é o galho, hein?
Abriu a gaveta, mergulhou nela a mão esquerda, a qual voltou munida de um charuto que foi logo acendido, exalando um cheiro forte.
O dr. Martinho havia tirado um lenço do bolso de trás da calça e com ele enxugava a umidade que cobria sua testa. Havia procurado, até ali, disfarçar ao máximo a tensão nervosa que o oprimia. Mas aquelas intermináveis horas de aflição estavam começando a minar suas forças. Necessitaria logo de um repouso. Mas havia, ainda, muito o que fazer.
O dr. Augusto percebeu que havia algo de errado e fitou o homem à sua frente com um ar preocupado. Deixara de lado o seu habitual bom humor, que proporcionava-lhe a capacidade de brincar com tudo e com todos.
__ Aconteceu alguma coisa, Martinho?
__ É...Eu quero que você dê uma olhada nisto. Depois eu comento.
Havia tirado do bolso o envelope que passou ao outro.
__ Isso apareceu, hoje de manhã, no jardim da residência do Gomes__ concluiu.
O outro havia prendido o charuto entre os dentes e ocupava-se em retirar o conteúdo do envelope com a pressa própria de todo executivo. Leu tudo em silencio, enquanto o dr. Martinho estivera fumando um cigarro.
__ Quem é que foi seqüestrado?
__ Ah, sim, esqueci de falar. Havia aí dentro a identidade do Gomes.
__ Diabo! O Gomes seqüestrado! É o fim da picada...O que você sugere?
__ Já falei com um delegado amigo que atendi recentemente no hospital. Vou entrevistar-me com ele, na sua residência, às seis horas. Eu gostaria que você também fosse.
O dr. Augusto olhou para o relógio.
__ Onde mora o cara, Martinho?
Retirou o cartão do bolso e leu:
__Rua dr. Eustáquio Lemos, 225
__ Onde fica isso?
__ Alto de Santana, parece-me.
__ Tem aqui um guia da cidade. Certifique-se enquanto dou algumas instruções ao engenheiro Paulo.
Saiu apressadamente enquanto o dr. Martinho folheava o guia a fim de se orientar melhor para atingir a casa do Wilson. Com muita dificuldade conseguiu localizar a rua no mapa. Sua cabeça já estava começando a doer. Foi até o bebedouro, no corredor, e engoliu um comprimido. Tinha que manter a calma e evitar qualquer incômodo físico para enfrentar os próximos dias.
Não tardou muito e Wilma veio avisá-lo que o dr. Augusto estava esperando na portaria. Passou a mão no guia e dirigiu-se para lá.
Encontrou o Dr. Augusto já dentro do carro que, prontamente, abriu-lhe a outra porta.
__ Oh, Deus! Esqueci a carta em cima de sua mesa
__ Essa não, Martinho!
Nem chegou a ouvir a exclamação do dr. Augusto. Já se precipitara de volta e, correndo, alcançou a sala sem deixar, entretanto, de despertar a curiosidade dos funcionários.
De posse da preciosa carta e, já de volta ao carro, disse simplesmente:
__ Vamos!
__ Para onde?
__ Alto de Santana. Essa rua é uma travessa da avenida Diametral
Viajaram durante algum tempo, cada um ruminando as próprias idéias, quando o dr. Augusto quebrou o silêncio.
__ Quem mais sabe desse assunto, Martinho?
__ Além de dona Ester, ninguém.
__ Por que é que você não decidiu levar logo o caso, oficialmente, à polícia.
__ Sei lá viu, Augusto. Eu fiquei meio preocupado com aquela cláusula das condições...
__ Cláusula das condições?__ interrompeu o outro.
__ É, Augusto. A cláusula desta carta que diz, ou melhor, ameaça: “ Se tomarem a medida que normalmente se toma em tais casos...” Qual é a primeira medida que a gente toma em tais casos? Vai à polícia, é claro! Daí a gente pode deduzir que os seqüestradores contam com elementos ligados à polícia, não?
__ É...Pode ser... Talvez.
O dr. Augusto tentava disfarçar mas estava visivelmente preocupado. Impacientava com os sinais vermelhos, arrancava aos trancos e tendia a exagerar na velocidade.
__ Parece que o prazo deles é de três dias não é, Martinho?
__ É...Agora não sei se eles estão contando o de hoje.
__ E nós vamos ter que levantar dez milhões em notas não seriadas, usadas, e aquela papagaiada toda, em três dias hein, Martinho?
__ Pois é, meu chapa, você está com um problemão...
O dr. Augusto olhou-o pelo canto dos olhos, fez uma careta e achou melhor não dizer nada.





Depois de uma série de informações conseguiram finalmente localizar a casa do Wilson. Era uma casa pequena,simples mas parecia aconchegante, como depois constataram ao entrar, convidados pela esposa do Wilson, que logo reconheceu o dr. Martinho. O marido não tardaria, informou ela.
De fato não demorou muito e ouviram ruído de carro que entrava na garagem. Alguns momentos depois estava na frente deles o Wilson.
Era um sujeito um tanto magro, bem trajado, aparentando seus 38 anos.
Inspirava confiança à primeira vista. Estendeu sorridente a mão ao dr. Martinho.
__ Como tem passado,dr. Martinho?
__ Bem, obrigado, Wilson. Este é o dr. Augusto.
__ Satisfação em conhecê-lo, dr. __ disse-lhe enquanto apertava-lhe a mão.__ mas... sentem-se, por favor...vou ver se arranjo alguma coisa para tomarmos...Whisky, pode ser?
Assentiram com a cabeça
Enquanto o anfitrião ia à procura de gelo, Martinho e Augusto conversavam:
__ Como será que está a Ester? Eu a havia deixado dormindo.
__ Qual foi a reação dela quando recebeu isso?
__ Eu não presenciei. Quando cheguei, porém, atendendo ao seu chamado, estava prostrada na cama sem coragem para nada.
__ É...Eu imagino.
Naquele momento Wilson voltou com algumas pedras de gelo nos copos. Serviu-os de bebida e deixou a garrafa na mesinha de centro.
__ Como é, Wilson? E o garotão,tá bom , não?__ perguntou o dr. Martinho.
__ Tá uma beleza,dr. Até não está aqui hoje. Ficou na casa da avó. A gente até estranha o silêncio que fica aqui, quando acontece isso.
__ Você só tem esse filho?
__ Não. Tenho uma garotinha, também.
__ O dr. Martinho disse-me que o Sr. É delegado de polícia,,,__ falou o dr. Augusto.
__ sim. No momento estou na décima lá na Rua Ouro Verde.
__ Wilson,__disse o dr. Martinho __ nós estamos necessitando de seus préstimos, como delegado, para orientar-nos na solução de um problema bastante melindroso.
__ Pois não, dr. Estou à sua inteira disposição. O que estiver no meu alcance, eu o farei sem medir esforços para tal.
__ Pois bem, Wilson. Ocorre o seguinte...
O dr. Augusto observava,em silêncio,as reações do delegado, enquanto o dr. Martinho expunha-lhe o que acontecera naquele dia. Quando o delegado recebeu das mãos do dr. Martinho a carta e começou a lê-la, interrompeu imediatamente a leitura, levantou-se e chamou-os pedindo que o acompanhassem a uma saleta que fizera de gabinete e biblioteca.

__ Senhores, eu já percebi a gravidade do caso só de olhar, de relance,para este documento. Queiram, por gentileza acompanhar-me. Nós vamos analisar isto com calma e não devemos ser interrompidos.
Foi até a cozinha e instruiu a esposa para que não fossem interrompidos.
Quando entraram na saleta, a porta foi fechada e foram convidados a sentarem em confortáveis poltronas. Era o tipo do lugar discreto e aconchegante. Bem iluminada por amplas janelas e, alvas cortinas atestavam o carinho de uma esposa zelosa. O piso era forrado por um tapete macio e as prateleiras, que iam até o teto, estavam abarrotadas de livros. O Wilson era um advogado que sempre gostou de estar pesquisando e passava horas e horas naquele gabinete. A enorme mesa de centro mais parecia um espelho de tão bem limpa e polida. Ele instalou-se na poltrona atrás da mesa, removeu a pequena pilha de livros que estava sobre ela, puxou depois a luminária e acendeu-a focalizando o facho de luz sobre o papel que colocara à sua frente.
O dia estava se findando e a luz natural se extinguindo. Tudo aquilo fora feito com gestos tão precisos e calmos que mais parecia uma cerimônia. De fato, o Wilson, quando estava prestes a executar qualquer trabalho, executava uma verdadeira cerimônia. Era um homem metódico e costumava deixar sobre a mesa somente o que se referisse ao caso em que estava trabalhando, mesmo assim, em perfeita ordem. Achava que, agindo assim, conseguia concentrar toda a atenção para o caso ao mesmo tempo que facilitava o acesso às informações rapidamente.Quem visse aquele homem trabalhando saberia logo que se encontrava diante de um homem organizado.
E foi assim que, após alisar o papel colocado à sua frente com as bordas perfeitamente paralelas às bordas da mesa, olhou para os dois “clientes” e, com um gesto, convidou-os a se aproximarem mais.
__ Bem, dr. Martinho e dr. Augusto, já que os senhores pediram a minha opinião a respeito,vamos, então, analisar o único elemento de que dispomos, no momento, neste caso que, por si só, por sua constituição ou ainda , por seu gênero, merece um estudo cauteloso das possibilidades de uma reação segura e bem sucedida.
Aquele homem havia se transformado completamente.Já não era mais o Wilson amável e quase ingênuo que conheceram, momentos atrás, na sala de estar. Ali, diante deles, estava um homem compenetrado de seu trabalho e o dr. Martinho sentiu, aliviado, que grande parte do peso que o esmagava tinha sido dividido com aquele delegado.
__ Mas...Wilson,__ falou o dr. Augusto__ nós sentimos muito incomodá-lo a estas horas. Afinal de contas, você já trabalhou o dia todo, porém o caso não admite perda de tempo, como você mesmo pode notar.
__ Não há dúvida que a mente que idealizou tudo isto, procurou cercar-se de toda segurança possível, no que ter aplicado um bom tempo. Pois bem, vamos analisar juntos agora, item por item, procurando atentar para os detalhes.
Leu em voz alta
__ Primeiro item – “ O refém está em perfeitas condições físicas, o que perdurará enquanto forem seguidas, à risca, as instruções.”
Até aqui nada de novo. É natural que eles usem todos os argumentos de intimidação. Eles próprios estão com medo e procuram impedir uma reação. Cumpre-nos não nos intimidarmos. Esperamos uma distração que, ao se manifestar, será usada contra eles.
__ É... Parece sensato __ concluiu o dr. Martinho.
__ Mas, por outro lado, poderíamos perguntar-nos __ continuou o Wilson __ se, com astúcia e habilidade, não poderíamos provocar esse oportuno momento de distração da parte deles? Poderíamos tentar cozinhá-los em banho maria talvez, conseguindo, assim, mais tempo para investigações. Ou talvez provocar um incidente qualquer que aparentemente não afetasse a segurança da estrutura do plano deles e nem tampouco tornasse contraproducente ou vulnerável a operação, obrigando-os assim a negociar e oferecer pistas.
Mas neste caso, pelo que tive oportunidade de ver, eles não nos deixam alternativas. Basta uma olhada pelos outros itens e a idéia de criar situações falsas, no intuito de ganhar tempo ou observar suas reações, seria inibida de imediato.
Vejam bem, como eu disse anteriormente, eles conseguiram elaborar um sistema em que a segurança da operação está em primeiro lugar. Eu digo isto porque em toda a minha carreira, lidando com criminosos, notei que a maioria deles tem uma coisa em comum. Eles deixam que a euforia tome conta deles. Começam a desfrutar antecipadamente de situações imaginárias que viverão após o sucesso de sua ação criminosa. Não aceitam, absolutamente, a hipótese do aparecimento de um contratempo e, por assim dizer, não olham o outro lado da moeda. Evitam imaginar um fracasso.
O que agrava a situação é o fato de termos como antagonistas,indivíduos frios e metódicos que parecem não estar dispostos a negociar sob nenhuma circunstância. Não fazem concessões. Tudo tem que ser feito em tempo determinado, dentro do esquema deles. Estamos lidando com uma bomba relógio. Não temos tempo a perder.
Parece que, com referência ao primeiro item, é o que consegui ver.
Algum dos senhores tem alguma observação a respeito, ou mesmo discorda do meu ponto de vista?
__ Oh não,__ disse o dr. Martinho __ eu concordo plenamente com você.
__ Eu tenho uma pequena dúvida.__ Falou o dr. Augusto enquanto ajeitava-se melhor na cadeira__ Há um pequeno ponto que você não abordou. Aí diz: “ O refém está em perfeitas condições físicas” Como é que vamos saber?...
__ A mesma pergunta faço eu __ exclamou o Wilson.__Nós simplesmente temos que partir da premissa de que o refém está, de fato, em perfeitas condições físicas.
__ Ué, poderíamos exigir uma prova, não Wilson?
__ Certo. Vamos supor que poderíamos contar com um leve vestígio de sensatez da parte dos seqüestradores, a ponto de aceitarem uma exigência nossa... Resta saber, agora, como entrar em contato com eles para fazer essa exigência...
__ Por intermédio da imprensa, ora! Eles devem estar atentos a ela, não? __ concluiu o dr. Augusto.
__ Essa atitude, dr. Augusto, iria colidir frontalmente com as instruções do terceiro item. Veja bem: “A publicidade em torno do seqüestro deve ser deixada para depois de terem recebido de volta o refém. Qualquer comentário será suficiente para o cancelamento da operação com a conseqüente eliminação do refém.”
A atitude proposta colidiria também, se bem que com menor gravidade, com o segundo item que diz:” Não temos idealismo político e não fazemos negociações. Este é o único aviso”

O dr. Augusto compreendera que não havia a menor possibilidade da iniciativa de um contato. O Wilson estava com a razão. Seria uma temeridade! Abaixou a cabeça e, com os cotovelos apoiados nos braços da poltrona, permaneceu, por alguns instantes numa posição que denotava um esforço para refletir com clareza.O dr. Martinho olhava pensativo para o chão e não se sentia disposto a fazer comentários. O Wilson contemplou aquele quadro desanimador e tentou animá-los.
__ Não devemos, entretanto desanimar logo de cara. Nós ainda não vimos todas as condições.Quem sabe há uma brecha?
Concordaram e prosseguiram com a análise.
__ Vejamos agora __ disse o Wilson __ o que diz o segundo item.” Não temos idealismo político e não fazemos negociações. Este é o único aviso”.Que é que podemos deduzir daqui?
A primeira parte “Não temos idealismo político”, é puro medo de que encaremos a situação como subversiva da ordem política e, consequentemente seja reprimida com muito mais rigor. Eles sabem que as autoridades militares são implacáves no combate a esse tipo de ação. A simples hipótese de que as autoridades encarem a situação como subversiva, apavora-os e levou-os a afirmar-nos antecipadamente que não é verdade. Pra dizer a verdade eu acredito que eles, de fato, não estão vinculados a nenhuma organização terrorista com fins subversivos. Eles são mesmo ladrões dispostos a tudo, até a matar.

O dr. Martinho havia acendido um cigarro e cedera um ao dr. Augusto que, no momento, não dispunha de nenhum dos seus fedorentos charutos.
O Wilson continuou __ Na segunda parte do item “Não fazemos negociações. Este é o único aviso”, eles querem dizer-nos: Nós queremos assim e pronto! Assunto encerrado. Não aceitamos contra-ofertas, sugestões, imposições,pedidos, nem ameaças nos intimidarão. Para tanto, não lhes damos nem condições de se manifestarem. Finalizando, fazem questão de avisar-nos que a bomba-relógio está ligada ao tempo que não pára de passar. Como eu disse anteriormente este é um crime diferente de todos no gênero. Em um seqüestro, normalmente há aquela série de contatos. Mas neste não. Eles simplesmente nos avisaram do ocorrido. Impuseram as condições e deixaram-nos dois movimentos: pagar o resgate ou condenar o refém à morte.

O dr. Martinho passou a mão pela cabeça, num gesto de desespero e limitou-se a observar:
__ É... não há dúvidas que são perigosos. São como feras. Atacam silenciosamente e com decisão deixando à vitima a única condição de presa, impossibilitada de reagir.
__ Mas, às vezes, a própria força gerada pela fúria da fera proporciona o meio para destruí-la. __ disse o Wilson __ vamos analisar o restante.

Alisou mais uma vez o papel intensamente iluminado pela lâmpada fria.
__ Passemos agora ao item seguinte...Aqui no terceiro item eles dizem:
“A publicidade em torno do seqüestro deve ser deixada para depois de terem recebido de volta o refém. Qualquer comentário será causa suficiente para o cancelamento da operação com a conseqüente eliminação do refém”.
Esta condição é uma das principais colunas de sustentação, por assim dizer, do esquema de segurança da operação. Como os senhores podem ver, o item está dividido em duas partes que se completam. Sugerem algo e, ao mesmo tempo, deixam transparecer de maneira clara, objetiva, usando de expressões contundentes, sua intenção de reagir violentamente no caso de não ser satisfeita sua vontade. Por outro lado, mais uma vez, podemos destacar um ponto positivo a nosso favor neste item que vem justamente responder à questão oportunamente levantada pelo dr. Augusto acerca da integridade física do refém. Notem que mencionaram naturalmente : “depois de terem recebido de volta o refém” . vamos alimentar, então, a otimista hipótese de que a integridade física do refém foi respeitada.
Como condição básica, as normas deste item deverão ser respeitadas religiosamente. Eu quero crer que somente nós e a esposa do seqüestrado temos conhecimento do ocorrido,não?
__ Os empregados da casa, naturalmente, sabem que foi encontrada essa carta no jardim da residência.__ afirmou dr. Martinho__ evidentemente que vão relacionar o fato com a súbita doença de dona Ester, mas penso que não devemos temer nada, pois pedi ao administrador da manutenção da residência, sigilo absoluto em torno do assunto, o que, naturalmente, se estenderá, por seu intermédio, aos outros empregados.
__ Perfeitamente, dr. Martinho. __ continuou o Wilson __A condição imposta neste item é bastante estranha...Normalmente todo malfeitor se sente lisonjeado com a reação gerada pelo seu ato maléfico. Ele sente que atingiu seu objetivo e experimenta uma vaidade mórbida com isso. É como o artilheiro que, ao observar o clarão a milhas de distância, tem certeza que atingiu o alvo visado. No caso do malfeitor, esse clarão chegar-lhe-á à percepção por intermédio da imprensa ou qualquer outro meio de comunicação de massa.Neste caso, porém, a coisa é diferente. Esses malfeitores são especiais, são um caso à parte e, por isso, merecem uma atenção especial. São frios e calculistas. Eles querem somente segurança para agir. Sabem perfeitamente que a imprensa é uma grande aliada da polícia pois, ao divulgar um fato, pode perfeitamente acarear testemunhas anônimas que porventura presenciaram a qualquer fase da operação mas permaneceram como testemunhas potenciais a espera da confirmação oficial de algo estranho que tenha ocorrido.
Essa confirmação, ao se manifestar, provocará imediatamente na testemunha, uma natural curiosidade tendente a se transformar numa vontade incontida de se projetar aos olhos da sociedade,vontade essa que só será saciada pela iniciativa direta ou indireta de prestar um depoimento que poderá vir a ornar-se útil ao trabalho de investigação e pernicioso à operação maléfica.
Em suma, eles querem que a operação transcorra na mais completa obscuridade para, somente depois quando já se julgarem isolados por uma considerável distância física e cronológica, explodir aos olhos do público como fogos de artifício.

O dr. Augusto mais uma vez ajeitou-se na cadeira e pigarreou, enquanto o Wilson olhou-o atentamente, esperando pela sua observação.

__ Não... pode continuar,Wilson, as suas deduções dispensam qualquer comentário.

Sorriram os três e o Wilson continuou.

__Pois bem, com as condições impostas neste terceiro item, eles visaram mais uma vantagem indispensável; o esfriamento de pistas.
O dr. Martinho e o dr. Augusto adotaram uma atitude de espanto e curiosidade.
__ Sim...__continuou o Wilson __ eu não vou novamente discorrer sobre isto, visto que nada mais é do que o que acabei de falar sobre as testemunhas potenciais. Ao estancarem, por intermédio do silêncio, o depoimento de testemunhas potenciais,eles estarão protelando-o para vir à tona somente após a entrega do resgate e devolução do refém. Nessa ocasião, porém, muitas testemunhas potenciais já se desinteressaram pelo fato que presenciaram ou mesmo alguma que, porventura, vir a depor,já não se lembrará, com exatidão, de detalhes que seriam de grande valia. Nesse caso, o tempo se encarregou de esfriar ou mesmo apagar uma possível e valiosa pista.
Eu temo estar me alongando demais nas explanações e estar provocando nos senhores um certo mal estar...
__ Oh não, Wilson __ interveio o dr. Augusto __É natural que a concentração provoque um certo cansaço mas isto é absolutamente necessário. Temos que usar o nosso escasso tempo da maneira mais útil possível e eu, sinceramente, penso que o estamos fazendo.
__ Você pode deixar de lado seus temores __ disse o dr. Martinho __ Nós é que deveríamos nos desculpar por estar roubando parte de seu tempo que, por direito, seria usado para repouso.
__Quanto a isso, dr. Martinho, podem ficar tranqüilos. Esta atividade é o meu passatempo preferido. Vamos continuar então. Passemos a examinar agora o quarto item da charada que os nossos amigos nos propuseram. Aqui diz: “O refém somente será liberado após constatarmos que não houve a mínima falha no plano (o que dependerá,em grande parte, de seu bom senso,cautela e, sobretudo, calma) e, também, após constatarmos que o numerário atende ás nossas medidas de segurança, tomando, para tanto, o tempo que nos for necessário e usando de elementos e métodos especiais que poderão culminar com a eliminação instantânea do refém no caso de havermos sido enganados”
Este item, a exemplo do item anterior, deixa transparecer claramente que a bomba relógio permanecerá ainda ligada por algum tempo após a consumação das exigências deles, com a entrega do resgate pedido. Isso vai exigir da nossa parte exatamente aquilo que estão nos propondo: bom senso, cautela e calma. Somente munidos desses três ingredientes conseguiremos cumprir nossa parte na operação de tal maneira a não provocar algum incidente que possa apresentar-se aos seus olhos como um esboço de reação, o que viria a acarretar conseqüências fatais. Eles fizeram a coisa de tal modo a deixar-lhes sempre uma saída. Ocupam,durante toda a operação, posições estratégicas a permitir-lhes uma rápida retirada do cenário quando este vier a tornar-se-lhes hostil ou simplesmente confuso. Estão sempre atentos para nunca se deixarem cercar...
__ Quanto a isto não há dúvida __ aparteou o dr. Augusto.__A gente nota que tônica em todos os itens sempre é: “cancelamento da operação com a conseqüente eliminação do refém”.
__ Pois é, __continuou o Wilson __ é notável a sua atitude. Nunca se deixam envolver totalmente e conservam sempre o gume afiado do seu ódio sobre a cabeça do refém, preferindo perder todo o trabalho aplicado numa operação a arriscar-se frente a uma dúvida por pequena que seja. Neste caso impor-nos-iam vingativamente a perda do refém.
__Poderíamos, entretanto, apelar para recursos técnicos a fim de facilitar as futuras investigações...
__ Como assim?__ perguntou o dr. Martinho.
__ Poderíamos, por exemplo, tentar marcar as notas do dinheiro do resgate, usando algum processo químico, talvez...Eu não conheço bem esse assunto mas parece que a técnica conseguiu desenvolver um processo assim.Ou poderíamos ainda instalar um dispositivo eletrônico no fecho da maleta portadora do dinheiro, quem sabe, para seguirmos sua rota de fuga. Existem diversos artifícios que podem ser usados. Acontece,porém, que, no caso, eles representam um perigo enorme além do inconveniente de virem a tornar-se ineficientes com sua ação sabotada pelo fator tempo. Notem bem o que eles dizem: “tomando, para tanto, o tempo que nos for necessário e usando de elementos e métodos especiais que poderão culminar com a eliminação instantânea do refém no caso de havermos sido enganados.”
__ Que é que eles querem dizer com elementos e métodos especiais?__ perguntou o dr. Augusto.
__ Sabe Deus!__respondeu o Wilson.__ pode ser uma farsa mas também pode ser que desenvolveram um sistema inédito de certificar-se que não os estamos enganando.
__ A julgar pelo plano maquiavélico que elaboraram, eu não duvido muito,não.__disse o dr. Martinho.
__O senhor tem razão,dr.__ concordou o Wilson o esconderijo onde guardam o refém, além de ser feita praticamente ao acaso, sem pista concreta alguma,despertaria, na certa, suspeitas de nossa reação, levando-os a adotar medidas drásticas.
__ Nós estamos simplesmente sem ação.__concluiu o dr. Augusto passando a mão direita sobre o rosto ao mesmo tempo que demonstrava uma expressão típica de desãnimo.
__Não diga isso, dr.__comentou o Wilson.__Eu acho que é cedo ainda para emitirmos tal conceito. Assim, vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

Fez uma pausa enquanto olhava atentamente para o papel e continuou.
__ Parece que,do item anterior, analisamos tudo. Vamos agora ao seguinte: item 5 “Ao receberem este aviso, se tomarem a medida que normalmente se toma em tais casos, fatalmente denunciar-se-ão.”

Ia continuar, quando o dr. Martinho o interrompeu:
__ Foi justamente esse item que levou-me a tomar a iniciativa de procurá-lo ao invéz de ir , oficialmente, `polícia. Pelo que eu pude interpretar, eles contam com elementos dentro da própria polícia. Seria, portanto, uma atitude insensata procurar a polícia sem, pelo menos, tentar localizar um policial em quem se pudesse depositar confiança, para, por intermédio dele, fazê-lo.
__Concordo plenamente com o senhor,dr. Martinho__prosseguiu o Wilson__ Na minha opinião,porém, o aviso que eles nos dão neste item, não passa de um blefe.
__Por que?__ quis saber o dr. Augusto.
__Porque se eles,realmente, contam com elementos dentro da polícia__ explicou o Wilson.__ não nos contariam jamais isso. O meu raciocínio é o seguinte: Todo seqüestrador, normalmente, presume que a família do seqüestrado procure a policia. Sempre que podem,então,procuram localizar elementos descontentes dentro da polícia e, habilmente, abordam-nos para obter sua adesão ao crime atraídos pela promessa de participação nos lucros. Isto quando a iniciativa não parte do próprio policial rebelde que, então, organiza seu bando. Pois bem, esse elemento vai funcionar, dentro da organização policial, como um espião. Primeiro, ele vai informar ao bando se a família procurou ou não a polícia. Depois, com o decorrer das investigações ou negociações, ele vai manter informado o bando, de todos os movimentos da polícia. Naturalmente que só poderá passar informações a que tiver acesso. O bando, por outro lado também, não se vale de elementos de baixo posto hierárquico na polícia. Normalmente eles procuram elementos mais categorizados e,consequentemente, mais ambiciosos. Esses elementos têm acesso a valiosas informações e, quando isso ocorre, um seqüestrador inteligente procura manter a identidade de seu espião, dentro da polícia,no mais absoluto sigilo. Afinal de contas, é um fator de segurança da operação.
Neste caso, se os seqüestradores tivessem, de fato, um espião na polícia, seria muito mais interessante, para eles, omitir-nos essa informação. Estariam assim,como afirmei antes,cientes da investigações.
__ Você acha então, Wilson,que eles somente tentam desestimular-nos de procurar a polícia, intimidando-nos?
__ Exatamente.Pois, do contrário, não estariam sendo coerentes. Mas, olhando bem para esse item, poderemos notar que está um tanto ambíguo. Podem estar se referindo ao que acabamos de analisar, como também a qualquer outra iniciativa de nossa parte. Mas que outra iniciativa pode haver num caso destes, senão procurar a polícia? Vamos, então, nos apegar a essa hipótese. Qualquer reação que pretendermos esboçar, entretanto, será dentro de um clima do mais absoluto sigilo, mesmo porque é condição básica dos seqüestradores, o silêncio.Lembram-se?

Olhou para os dois á sua frente. Pareciam cansados, não tanto pelo esforço mental, mas sim pela desilusão. Já haviam, praticamente, dissecado mais da metade daquelas condições sem localizar uma brecha sequer na estrutura daquele plano.
O delegado insistiu para que jantassem em companhia deles pois pretendia, logo em seguida, continuar com a análise daqueles termos.
Aceitaram. A pausa seria providencial.


De volta à saleta, o dr. Augusto manifestou suas dúvidas enquanto sorvia uma xícara de café.
__ Você acredita, Wilson que temos condições de planejar uma reação dentro de uma margem de segurança?
__ Sinceramente,dr. Augusto, pelo que vimos até agora não dá para pensar ainda numa reação. Temos, entretanto, uma boa parte a analisar e, além disso, o próprio papel, o envelope, o plástico e a cédula de identidade terão que ser analisados pela técnica. Pode ser até que contemos com o automóvel do seqüestrado para ser examinado...
Muitas vezes os seqüestradores preferem abandonar o carro da vítima, o qual poderia despertar suspeitas por ser um carro de maior categoria ou de luxo ou, ainda simplesmente, por não ter onde escondê-lo. Nesse caso,então, ele pode ser portador de valiosas pistas, principalmente se nele viajaram os seqüestradores.

Terminaram o café e dispuseram-se a prosseguir com a tarefa que haviam iniciado. O Wilson ajeitou o papel sobre a mesa e aproximou a lâmpada um pouco mais.
__”Ao concordar em pagar o resgate”, diz o sexto item,” coloquem um anúncio no jornal, São Paulo, nos seguintes termos:-- Para os nascidos no mês de Dezembro, o jantar está servido.—seguiremos edições de três dias após os quais, em caso negativo, cancelaremos a operação.”
Este item não deixa de ser um tento exótico. O seu propósito, porém, é bastante inteligente. Necessitam de um contato para obter uma informação que julgam importante mas não querem expor-se aos riscos de um contato direto através do telefone, por exemplo, e nem dar, à família do seqüestrado, chances de negociações. Apelam, então para esse método prático e insuspeito de contato. Não deixam, entretanto, de condicionar tudo a um exasperante limite de tempo e nem de manifestar a sua macabra intenção, aqui habilmente dissimulada, no caso de serem contrariados.
__ Eu, por um momento, tive a intenção __ interrompeu o dr. Martinho __ de já providenciar a publicação dessa senha. Refleti melhor, porém, e achei que seria mais conveniente informá-los no segundo ou terceiro dia. Assim ganharíamos mais tempo.
__ Como assim? __ quis saber o dr. Augusto.
__ É evidente, Augusto, se eu os comunicasse logo de cara eles pensariam que já estávamos de posse do dinheiro do resgate e tratariam logo de passar a informação para o pagamento, roubando-nos, assim, grande parte do tempo.
__ É...certo, você fez bem...Eu estou curioso para saber por que adotaram essa senha “para os nascidos no mês de Dezembro, o jantar está servido”
__ Não vejo grande importância nisso.__respondeu o Wilson__ É uma senha, simplesmente...
__ Não haverá alguma pista por trás disso?__insistiu.
__ Não creio,dr. Se há, eu não consigo ver. O que me preocupa mais é o pouco tempo que nos deram. Três dias é muito pouco... a família do seqüestrado tem condições de levantar o dinheiro do resgate em três dias?
__ Talvez.__respondeu o dr. Augusto. Eu vou começar a providenciar isso logo de manhã.

O dr. Martinho deixou transparecer uma expressão de alívio. Esse ponto vinha atormentando-o continuamente.
O Wilson analisava ainda o papel atentamente e vendo que, no item anterior, não havia mais nada que merecesse comentário, resolveu ir em frente.
__ Prosseguindo com a nossa via sacra, vamos ver o que tem o 7º item. “O valor do resgate é de R$ 10.000.000,00 que deverão ser pagos, tendo como portador, pessoa da família, em notas não seriadas, acondicionadas em menor volume possível dentro de uma maleta, de acordo com instruções abaixo. Não apanharemos o resgate se notarmos algo de estranho em qualquer sentido, tendo como conseqüência o cancelamento da operação.”

Fez uma Pausa enquanto lia novamente, em silêncio, aquele item, para compreendê-lo melhor.
Todos naquela sala já estavam demonstrando visíveis sinais de cansaço gerado pela excessiva concentração e tensão. Nenhum deles, porém, tinha a intenção de parar. Sabiam, perfeitamente, que era de suma importância aproveitar integralmente o tempo. A vida de um homem estava condicionada a esse fator e era preciso salvá-la. Finalmente o Wilson levantou os olhos do papel e continuou.
__ O que me intriga mais neste item é a razão pela qual o valor, ou melhor, a cifra R$ 10.000.000,00, foi manuscrita, depois, no papel datilografado...vejam só __ mostrou-lhes o papel.

Eles já haviam notado também mas não sabiam a razão daquele procedimento por parte dos sequestradores.

__ De fato,__ confirmou o dr. Augusto__os algarismos foram manuscritos depois.

O dr. Martinho devolveu o papel ao Wilson que recolocou-o sobre a mesa e continuou.
__ parece-me que a única hipótese viável é a de que eles elaboraram o plano , pré-fabricaram estas condições de resgate e saíram por aí afim de caçar uma vítima qualquer, escolhida ao acaso, que tivesse condição, naturalmente, de pagar-lhes uma vultuosa quantia.
__ Como iriam saber se a vítima tinha dinheiro ou não?__perguntou o dr. Martinho.
__ Existem várias maneiras de se saber se a vítima tem dinheiro, dr. Martinho...naturalmente que se orientaram pelas aparências. O carro, por exemplo. Uma pessoa bem trajada, dentro de um carrão do ano aparentará, naturalmente, ser uma pessoa rica. Basta, então, que os seqüestradores sigam aquele carro e confirmem a identidade de sua vítima, podendo,até,durante dias, estudar seus hábitos esperando por uma oportunidade de seqüestra-la. Neste caso ,porém este curioso detalhe de a importância ter sido colocada depois no papel, leva-nos a crer que a ação do seqüestro foi executada logo após a localização da possível vítima sem mesmo a confirmação da potencialidade financeira do seqüestrado. Presume-se,então, que já estavam com estas condições prontas, faltando somente colocar o valor do resgate, valor esse que estipularam quando já de posse da vítima.

Voltou a examinar o papel e prosseguiu:
__ Quanto à importância, é, de fato, uma soma vultuosa. Para ser levantada em um tempo tão curto, é necessário que se tenha muita influência nos meios financeiros.
__ Podemos deixar isso a cargo do dr. Augusto, viu Wilson__ disse o dr. Martinho, com uma certa ironia.
__ Eu cuido dessa parte.__retrucou o dr. Augusto muito sério.
__ Pois bem,__ continuou o Wilson__ este item parece ser o único que é uniforme em todos os pedidos de resgate. É aquele blá-blá-blá de notas não seriadas, usadas, acondicionadas em pequeno volume, etc...
__ Há um pequeno detalhe aí,viu, Wilson __interveio o dr. Augusto__ eles pedem que o resgate seja portado por pessoa da família...quem vai levar isso lá?__ enquanto dizia a última frase olhava para o dr. Martinho, que respondeu imediatamente:
__ Isso é o de menos...eu resolvo lá com a Ester.
__ Não é tão simples assim, dr. Martinho.__ retrucou o Wilson__ A questão levantada pelo dr. Augusto foi providencial. Para entregar o dinheiro aos seqüestradores teremos que indicar uma pessoa que seja, sobretudo, calma, pois a pessoa com essa qualidade terá muito mais condição de observar as características dos elementos presentes nesse contato. Quanto ao fato de ser ou não da família, tenho a impressão que os seqüestradores não têm condições de identificá-lo.
A serem marcados, que será
Após uma breve pausa, prosseguiu:
__ A última parte do item, como não poderia deixar de ser,não é nada mais que a clássica ameaça de cancelamento da operação e, consequentemente, a eliminação do refém.

Tanto dr. Augusto quanto dr. Martinho perceberam que o Wilson perdera muito da sua eloquência e entusiasmo com que iniciara a análise daquela série de itens humilhantes e frios. O cansaço abatera-o e ele não conseguia dissimular isso. Encontrou, entretanto, forças para levar até o fim aquilo que havia iniciado.

__ Finalmente, meus amigos,vamos ver o que mais eles querem neste oitavo e último capítulo do drama. Aqui diz: “Esteja com a importância em local, data e hora a serem marcados, que será apanhada por elemento que está sendo pago unicamente para apanhá-la e desconhece o plano e seus mentores, o qual, se defrontar-se com situações, de antemão, identificadas como adversas, tem instruções de sinalizar-nos utilizando de método especial, sendo que, com tal movimento, inconscientemente, privar-se-á da própria vida. Em tal hipótese cancelaremos a operação.”

Também esse item ele fez questão de ler novamente antes de começar os comentários.
__ É...realmente fecharam com chave de ouro, toda sua representação...Vamos ver por etapas,então.
Ao omitir-nos a data e a hora para recolhimento do resgate pretenderam, naturalmente, evitar que preparássemos uma operação de cerco, como se seu plano já não estivesse suficientemente encouraçado como tivemos oportunidade de verificar pelos itens anteriores. Resta saber como entrarão em contato conosco para fixar o local, a data e a hora. Naturalmente que vão cercar esse contato de toda segurança possível para evitar fornecer-nos pistas. Mas, prosseguindo, vemos que na parte seguinte eles alegam dispor de um elemento exclusivamente para comparecer ao encontro e recolher o dinheiro do resgate, afirmando que esse mesmo elemento é uma espécie de testa de ferro. Não sabe de nada.
Eu, sinceramente, acredito na afirmação deles. É perfeitamente possível e, mais que isso, é mais seguro para eles. Afinal de contas é a fase mais vulnerável de toda operação. Eles não se contentam, entretanto, com essa garantia de ter como luva, por assim dizer, um elemento que ignora o assunto. Eles querem sentir-se mais seguros ainda. Fizeram a coisa de tal maneira que esse elemento, além de ignorar o plano e a identidade de seus mentores, autodestruir-se-á automaticamente e sem o saber, naturalmente, pensando estar emitindo para eles um sinal pré-estabelecido no caso de ser molestado ou deparar-se com situações adversas, como dizem aqui.
__ Como pode ser isso, Wilson?__ perguntou o dr. Martinho__ eu não entendi muito bem isso aí...
__ É simples, dr. Vou citar uma hipótese. Pode ser que esteja errado. Vamos supor que o individuo encarregado de apanhar uma maleta chegue ao local combinado, Observa o ambiente. Se estiver tudo normal, ele entra. Se ele notar alguma anormalidade qualquer ou, se ao entrar em cena, for abordado pela polícia ou ainda se, depois de afastar da cena, sentir-se perseguido ou seguido, estando de carro,poderá ter sido instruído para acionar algum controle que é usado somente em casos especiais...os contatos dos faróis de milha, por exemplo...
Ao executar esse movimento poderá detonar uma carga de explosivos colocada sob seu banco, pensando estar operando os faróis de milha.
__ É fantástica a imaginação desses caras__ observou o dr. Martinho.
__ Mas pode crer,viu, dr. __ continuou o Wilson__ que essa história de sinalizar por método especial, privar-se inconscientemente da própria vida,etc...é tudo papagaiada. Não tem nada disso. O que eles querem é intimidar-nos para não os molestarmos, isso sim.
Que o elemento de contato desconheça o plano e seus mentores, pode ser verdade...disso eu tenho quase certeza.
__ Mas se for tudo verdade? __ insistiu o dr. Martinho
__ dr.,__esclareceu o Wilson __ essas conseqüências aconteceriam se a policia abordasse o elemento ou, simplesmente, se manifestasse diretamente de uma forma ou de outra. Nós simplesmente não temos condições de manifestar-nos em tais circunstâncias e, além disso, temos que concorrer para que nada de anormal aconteça nesse local, nessa data e nessa hora, pelos seguintes motivos:
Primeiro, porque se algo acontecer o refém será morto imediatamente.
Segundo, porque o refém ainda permanecerá em poder dos seqüestradores pelo tempo que eles julgarem necessário a fim de se certificarem do sucesso da operação. Uma reação retardada, então, de nada adiantaria...

__Muito bem, Wilson __ interveio solenemente o dr. Augusto descruzando as pernas enquanto dobava um pouco o corpo para frente e cruzava os dedos tendo os cotovelos apoiados nos braços da poltrona.__ Nós viemos à sua casa, deviam ser dezoito horas e poucos minutos, com o propósito de pedir a sua opinião a respeito desse assunto, ou melhor, desse incidente. Aceitamos, então a sua sugestão e, principalmente, a sua ajuda no sentido de analisar detalhadamente os termos impostos pelos seqüestradores para a devolução de seqüestrado intacto. Após ficarmos quase metade de uma noite analisando todos esses itens, eu finalmente cheguei à conclusão de que uma reação de nossa parte seria fatal para o Gomes que, para mim, representa muito mais que um amigo...é um verdadeiro irmão. O esquema de segurança dos seqüestradores foi muito bem elaborado. Não nos deixa a mínima chance de reação. Eu, portanto, meus amigos, sou de opinião que devemos pagar o resgate sem oferecer resistência. A vida do meu amigo vale muito mais. Eu acho que seria incapaz de continuar vivendo se viesse a provocar a sua morte...eu sinto muito se discordo da opinião de vocês...mas a minha opinião é essa.

Fez-se um profundo silêncio na sala. O dr. Augusto havia acabado de exprimir sua maneira de pensar a respeito e deixara , agora, a cabeça pender um pouco para frente numa atitude de resignação e desânimo. Causava pena ver aquele homem que jamais sofrera humilhações na vida, assumindo aquela atitude de derrotado, em nome da amizade e da solidariedade humana. Filho de rica família do interior, tinha recebido uma educação esmerada. Herdara do pai, sábios conselhos, dentre os quais um marcara-o mais: “ Pense duas vezes antes de agir”. Daí a sua prudência nas decisões. Acostumado a tomar decisões no seu cargo, juntamente com o Gomes, nunca se deixara inflamar com as boas perspectivas e nem se deixara vencer pelas más. Sempre procurou analisar tudo sob um prisma realista, sem euforismos nem comiseração. Ele aceitava aquilo que, na sua concepção, era real. Foi justamente esse temperamento que o levou a emitir aquele conceito sobre o seqüestro.

O delegado Wilson, por sua vez, tinha se recostado na poltrona e, tendo afastado-a um pouco da mesa, cruzara a perna direita sobre a esquerda, enquanto dos dedos das mãos se entrelaçaram atrás da nuca que estava apoiada no encosto. Fechara os olhos e tentava coordenar as idéias que fervilhavam em sua mente. Após ter ouvido calado a rendição do dr. Augusto,participou, por alguns minutos, do pesado silêncio que se havia abatido sobre eles mas, na condição de macaco velho, resolveu reanimar os companheiros.

__ Dr. Augusto, eu penso que o senhor está se deixando levar por preconceitos...Eu, sinceramente, me considero autoridade no assunto. Estou há dezessete anos nessa jogada. Posso assegurar-lhe, dr, que não está na hora de fazermos ainda um conceito a respeito disso. É verdade sim que, depois de analisarmos isto não encontramos nenhuma brecha mas, como já afirmei atrás, ainda dispomos de elementos para investigar e, partindo do princípio de que todo plano tem sempre uma falha, ela deve estar nesses elementos que ainda não investigamos. Se após investigarmos tudo e constatarmos que, de fato, o plano deles é tão bem feito que não admite reação, a qual estaria condenada ao insucesso, aí então faríamos como o Sr. sugeriu, pagaríamos o resgate sem reação. Afinal...temos que conhecer nossas limitações. O que acho um absurdo, é começar a investigar alguns elementos e, pelo fato da investigação não apresentar resultado positivo, desanimar logo de cara e deixar de investigar os restantes. Que é que o senhor acha, dr. Martinho?

O dr. Martinho até então tinha estado quase deitado na sua poltrona, os braços cruzados sobre o peito, as pernas esticadas e os pés encavalados um sobre o outro. A cabeça estivera durante todo tempo pendendo sobre o peito. Quem o visse pensaria que estava dormindo. Sua mente, porém, estava em ebulição. Não conseguia, entretanto fixar-se em nenhuma idéia. Estava por demais cansado.

__ Eu, sinceramente, concordo com o seu ponto de vista,Wilson e acho que o dr. Augusto está sendo, de fato, um pouco precipitado no seu julgamento. Todavia há uma pessoa cuja decisão será essencial; a esposa do seqüestrado.Ela, quando tomou conhecimento do ocorrido por intermédio desta carta,ficou com os nervos um tanto abalados mas felizmente é uma mulher extremamente forte e creio que amanhã estará em condições de opinar com bom senso.
__ Se os senhores me permitem uma sugestão__ disse o Wilson ajeitando o corpo na cadeira__ vamos deixar o assunto situado da seguinte forma: como temos aqui duas opiniões antagônicas, vamos aguardar o pronunciamento da esposa do seqüestrado. Se ela for favorável ao prosseguimento das investigações com o propósito de manifestar uma possível reação dentro de uma margem de segurança, então os senhores devem procurar-me amanhã lá na delegacia para procedermos ao registro da queixa e iniciarmos as investigações que se fizerem necessárias. O Sr. tem o meu endereço, não dr. Martinho?
__ Sim, tenho o seu cartão. Mas vamos esclarecer um ponto, Wilson. Apesar de você achar que a informação que eles nos prestaram, de contar com elementos dentro da policia, ser...
__ Um conceito hipotético,dr.Martinho__ interrompeu o Wilson__ Pode ser que não interpretamos exatamente aquilo que quiseram nos dizer.
__Oh sim, você tem razão, Wilson.Mas como eu estava dizendo__prosseguiu o dr. Martinho__ eu quero crer que, devido à gravidade do caso, você mesmo conduzirá as investigações e, em suma, tudo o que se relacionar com ele.
__ Pode ficar tranqüilo, dr. Martinho. Vai ser como eu comentei antes quando analisávamos o item que o senhor acabou de mencionar, lembra-se? Eu havia dito, no final, que qualquer atitude adotada de nossa parte seria cercada do mais absoluto sigilo, mesmo porque o sigilo é condição básica imposta por eles. É evidente,entretanto que se os senhores vieram a registrar a queixa do ocorrido, eu,naturalmente não vou poder trabalhar sozinho no caso. Quero,contudo que fiquem cientes que este caso não será para mim um caso como outro qualquer. Será um caso especial e, como tal,merecerá atenção especial, não tanto pela amizade que existe entre nós mas mais pela essência do caso que, eu com toda a sinceridade, considero se não o mais, pelo menos um dos mais complexos e melindrosos casos que já me apareceram. Vou, portanto ter de depender de coadjuvantes mas estes serão escolhidos a dedo entre os de minha inteira confiança.
__ Mas pode ser, Wilson,__ interrompeu o dr. Augusto__ que você necessite dos serviços de outros departamentos...a técnica, por exemplo.
__ Sem dúvida que vou necessitar, dr.Augusto. Acontece, porém, que conto com um grande circulo de amizades em quase todos os departamentos. Amizades geradas pelo convívio e troca de favores que, ao longo dos anos, sedimentaram-se. São pessoas de minha inteira confiança. Além disso, vou falar com um grande amigo na central o qual vai ser de grande valia na condução das investigações.
__Vamos, então, fazer como você sugeriu: eu e o dr. Martinho vamos falar com dona Ester e expor-lhe tudo o que tratamos aqui, as conclusões a que chegamos, os riscos e as chances de uma reação. Ela, então decidirá se registramos a queixa ou não.
__ Quero lembrar-lhes mais uma vez__falou o Wilson__ que temos, ainda, chances de descobrir uma falha deles nos elementos que ainda estão por ser examinados e que esse exame só será possível mediante o registro formal da queixa. A análise que fizemos aqui, apesar de ter sido uma análise bastante detalhada, foi apenas introdutória e informal. Após o registro da queixa, isso tudo será analisado novamente bem como todos os elementos que vierem a cair-nos nas mãos.
__ Bom, Wilson,__ concluiu o dr. Martinho__nós queremos, antes de mais nada agradecer sua atenção e colaboração, principalmente a maneira prestimosa que, com sacrifício de seu tempo até, nos atendeu. Pode crer que sua ajuda no esclarecimento deste caso foi e será de grande valia, pois eu tenho quase certeza que dona Ester vai concordar que se registre a queixa e prossiga as investigações.
__ Eu gostaria de ficar com este papel, se vocês não se opõem,__pediu o Wilson,__ preciso dar mais uma olhada, pela manhã.
__ À vontade, Wilson.__respondeu o dr. Augusto.
__ Amanhã, quando me procurarem, não se esqueçam de levar a cédula de identidade que estava no envelope,sempre tomando o cuidado de segurá-la pelas bordas.
__ OK,__confirmou o dr. Augusto, fazendo menção de levantar-se enquanto o dr. Martinho, olhando para o relógio, exclamou:
__ Por incrível que pareça, são onze e meia!

Automaticamente os outros olharam para seus relógios, sem esconder o espanto.
__ Deixe-me servir-lhes mais um café.__observou o Wilson levantando e dirigindo-se para a porta.
__ Não.Não se preocupe, Wilson.__interveio o dr. Martinho__Já é um pouco tarde e o café tirar-me-ia o sono.
__ Então deixe-me mostrar-lhes um conhaque que tenho aqui. Está mesmo um pouco frio lá fora.

Levou-os até a sala onde convidou-os a sentar e serviu-lhes um cálice da bebida que foi prontamente elogiada. Conversaram ainda durante alguns minutos enquanto o dr. Martinho tirava baforadas de seu cigarro. Os três pareciam bastante cansados mas, ao mesmo tempo, satisfeitos. O tempo tinha sido aproveitado da melhor maneira possível.
__ Não obtivemos resultado positivo mas foi um trabalho e tanto, não, Wilson?
__ É sempre assim,dr. Augusto. Eu já estou acostumado. À primeira vista, é sempre aquela decepção. Depois a gente vai vendo as coisas mais claramente.
__ Quem poderia ter elaborado esse plano?__ perguntou mais para si mesmo o dr. Martinho enquanto apressava-se em cobrir, com a mão, um bocejo que viera estrangular o final de sua frase.
__ É o que gostaríamos de saber, dr. Martinho...__ respondeu o Wilson, em tom de gracejo, que ouvira a quase imperceptível pergunta.

Riram todos enquanto o dr. Augusto agora punha-se de pé decidido a despedir-se do Wilson para retirar-se.
Caminharam até a porta ainda fazendo alguns comentários despretenciosos. Apertaram-se as mãos e afastaram-se enquanto uma chuvinha fina insistia em cair quase imperceptivelmente.



A manhã do primeiro dia subseqüente ao que fora encontrada a carta no jardim dos Gomes estava radiante. Na noite anterior havia chovido um pouco o que contribuira para amenizar o calor que fizera durante o dia. Tudo era rotineiro. O sr. João andava por todos os lados, às vezes apressado, às vezes com sua costumeira pachorra, falando com um, procurando por outro ou simplesmente observando as atividades.
No interior da residência o telefone já havia tocado três vezes antes que o Durval acabasse finalmente de enxugar as mãos e o atendesse.
__ Alô!
__ Durval? é o dr. Martinho...
__ Ôh, dr.! como vai?
__ Dona Ester já acordou?
__ acabou de acordar e está no banho, dr. O sr. quer falar com ela?
__ Não. Diga-lhe que eu e o Dr. Augusto estamos indo para aí. Precisamos falar com ela.
__Sim,sr. Eu aviso

Desligou e dirigiu-se ao andar superior para certificar se ela ainda estava no banheiro. Já havia saído, mas como ela ainda estava no quarto, resolveu falar-lhe através do interfone.
Ela deixou a escova sobre a mesinha para apertar o botão do aparelho,responder e ouvir:
__ Dona Ester,recebi um telefonema do dr. Martinho dizendo que ele e o dr. Augusto estão vindo para cá a fim de falar com a senhora.
__ OK, Durval. Quando chegarem, leve-os até a biblioteca. Estarei lá.

Apanhou novamente a escova e continuou a cuidar de seus cabelos enquanto refletia ainda meio confusa. Nessa noite tivera o sono muito agitado e povoado de sonhos terríveis. Teria que apelar para um pouco de maquiagem para não deixar transparecer ao dr. Augusto e dr. Martinho a sua feição cansada e um tanto abatida como insistia em mostrar-lhe o grande espelho à sua frente. Tentava lembrar-se dos termos daquela terrível carta enquanto virava a cabeça de um lado e do outro, diante do espelho, e, com a escova, dava os últimos retoques nos sedosos cabelos negros. Percebeu, intrigada, que não conseguia lembrar-se de quase nada. Fora um golpe muito duro para ela e procurava, instintivamente, afastar-se daquela lembrança. Por outro lado, havia uma estranha força que a incitava a combater aqueles indivíduos que ousaram desafiá-la. Após ter trocado de roupa, apreciou sua imponente figura refletida no espelho e pensou:
__Não, Ester, você não vai se deixar vencer por esse bando de cretinos. Você vai lutar contra eles de algum modo e vai mostrar lhes que o fato de ser mulher, não a inferioriza em coragem.

Abriu o guarda-roupas, de onde retirou uma malha e atirou-a sobre os ombros sem vesti-la. Apanhou o inseparável maço de cigarros e dirigiu-se à biblioteca. Logo ao entrar, avisou o Durval, pelo interfone, para trazer-lhe o desjejum. Ligou o som e ficou a ouvir repousante música de piano e orquestra enquanto acomodava-se na poltrona atrás do birô. Fêz girar a poltrona até que ela ficasse de frente para a janela e, com os braços cruzados sobre o peito, deixou que aquela paisagem inebriante banhada pelo sol da manhã entrasse-lhe pelos olhos e fosse dançar em sua alma ao som da rapsódia que entrava-lhe pelos ouvidos.
Tinha um grande problema, é verdade. Iria resolvê-lo. Não sabia como,só sabia que iria resolvê-lo. Não tinha a mínima intenção de deixar-se levar pelo desespero e pelo pânico. Não ajudariam em nada mesmo...Tomaria seu café tranquilamente e depois, calmamente, fumando seu cigarrinho, receberia o dr. Martinho e o dr. Augusto. Na certa eles a colocariam a par de tudo o que já fora feito e da situação atual das coisas. Um leve tinir de metal despertou-a de seus pensamentos e, virando-se, deu de cara com seu café matinal sobre a mesa, tendo como pano de fundo a brancura do paletó do Durval.
__ Bom dia, dona Ester. Dormiu bem?
__ Bom dia, Durval. Não durmi muito bem, não. O que é uma barulheira danada que se ouve durante toda noite na janela da sala? Parece alguém mexendo na janela...
__ Ah, deve ser o galho do abacateiro que, por estar muito próximo à casa, chega a tocar na janela. À noite, então, pela ação do vento, produz esses ruídos que a senhora ouviu.
__ Pois faça-me um favor, diga ao João para providenciar o corte desse galho imediatamente...
__ Quebrar o galho?...É comigo mesmo!

A mulher levantou bruscamente a cabeça para ver quem se atrevera a pilheriar com suas ordens, enquanto o empregado, à sua frente, olhara para trás, com a firme intenção de transferir para aquele lado a responsabilidade pelo atentado.
Uma boca escancarada emitiu uma série de ruídos como se fossem rugidos cortados em fatias que pretendiam ser chamados de risada.
O dr. Augusto, seguido pelo dr. Martinho, irrompeu na sala enquanto o Durval, com uma leve reverência, saiu e fechou a porta.
__ Como vai,Ester? __ falou estendendo-lhe a mão__ Você está com uma ótima aparência...Não é mesmo, Martinho?
__ Claro! Parece até mais gorda __ disse o médico enquanto ria e apertava-lhe a mão.
__ Cretinos mentirosos! __ rosnou ela apontando-lhes as poltronas que já estavam sendo ocupadas.__eu imagino que, como sempre, vocês vão querer só o cafezinho...

Ainda falava, quando apertou o botão do interfone e o pediu ao Durval.

__ Como passou a noite, Ester? __ perguntou o dr. Martinho?
__ Noite maravilhosa, viu Martinho... uma verdadeira noite de núpcias. Além dos agradáveis pesadelos, havia um desgraçado d’um barulho na janela de baixo que dava calarios...

Dona Ester se ocupava agora em passar geléia em um pedaço de pão, recostada na poltrona, numa atitude tão tranqüila, que chegou a impressionar o dr. Martinho. Aquela mulher tinha uma incrível capacidade de recuperação. Quem a visse ali, pensaria ser ela a própria ausência de problemas. Desligou o som.

__ Que é que vocês me contam?
__ Bem, Ester...__começou o dr. Martinho__nós estivemos ontem até quase meia noite na casa de um amigo delegado

Ela assentiu com a cabeça e ele continuou.
__ Nós submetemos à apreciação dele a carta que foi encontrada no jardim, a qual teve seus itens praticamente dissecados. Foi feita mesmo uma análise profunda e geral.
__ E qual a conclusão? __ quis saber a impaciente mulher.
__ Por enquanto não encontramos nada que possa parecer uma pista. O Wilson, entretanto, acha...
__ Quem é o Wilson, Martinho?
__ É o delegado, Ester.
__ Ah sim! Continue.
__ O Wilson acha então que devemos registrar a queixa para que a polícia possa examinar outros elementos à luz da técnica.
__ Que outros elementos?
__ Bom... O próprio material que encontramos no jardim, o papel, o envelope , o plástico que o envolvia e a carteira de identidade do Gomes. Aliás, a carteira de identidade ficou aí com você,não?

Ela abriu a gaveta para certificar-se.
__ Segure-a somente pelas bordas como se faz com os discos, Ester. Assim você evita deixar nela suas impressões digitais e facilita o trabalho dos técnicos...
__ É...está aqui,sim. Por que, vocês vão precisar dela?
__ Sim, o Wilson pediu que a levássemos...
__ E vocês vão transportá-la até lá assim, segurando-a pelas bordas?...__ disse ela com um leve toque de ironia.

O dr. Martinho não conseguiu imaginar um método de transportar aquele objeto sem que se estabelecesse contato com outro material.
Por fim o dr. Augusto, que até então,permanecera calado,arriscou uma opinião que pareceu-lhe sensata.

__ Meta um clipe em cada canto dela e enfie-a num envelope...

Enquanto ela fazia o que foi sugerido,perguntou:

__ Por que vocês decidiram recorrer a esse delegado...o Wilson, antes de ir direto à polícia e registrar a queixa?
__ Por dois motivos __ explicou o dr. Augusto__Primeiro, porque os bandidos impõem silêncio como condição básica da operação...se fôssemos direto à polícia, correríamos o risco de ver o assunto se alastrando por aí, levado pela língua de irresponsáveis.
Segundo, porque eles deram a entender em um item das condições, que dispõem de espiões dentro da própria polícia, o que o delegado acha pouco viável pelo simples fato de nos haverem comunicado isso.
__ Que é que vocês acharam desse delegado?
__ Brilhante! __ respondeu o dr. Martinho.
__ Não resta dúvida.__concordou o dr. Augusto.__ o homem conhece bem a sua profissão. Analisa tudo com clareza e objetividade. Se não encontramos pistas naqueles termos,é porque não existem mesmo. Aquilo foi produto de anos de estudo e pesquisa. Por outro lado a impressão que tive do homem é boa.Parece um indivíduo em quem se pode depositar inteira confiança.
__ Qual a opinião de vocês? Devemos ou não, registrar a queixa?

O dr. Martinho foi firme:
__ Eu sou de opinião que devemos registrar a queixa,viu, Ester. Agindo assim, daremos ao Wilson, oportunidade de analisar os outros elementos que ainda não foram examinados, os quais poderiam perfeitamente esconder pistas valiosas. O que não devemos fazer é adotar atitudes precipitadas. Após uma análise detalhada de tudo, iríamos verificar a possibilidade de uma reação que não oferecesse perigo á vida do Gomes. Acho, então, que não devemos desanimar, sem antes haver pesquisado tudo.

Ficaram, os três, em silêncio por alguns momentos, quando, então, dona Ester olhou para o dr. Augusto, inquisidoramente.

__ Bom, Ester, o dr. Martinho e o delegado Wilson comungam as mesmas idéias__falou ele__ eu acho perfeitamente natural isso...afinal, quando se toma conhecimento de um crime, a primeira reação é de repressão ao mesmo. Acontece, porém, que eu não consigo ver a coisa assim. Para mim, a idéia do crime está em segundo plano. Em primeiro plano está a vida do meu amigo e companheiro. Eu, sinceramente , acho muito arriscado uma reação de nossa parte. Eu não suportaria a responsabilidade pela morte do Gomes.

A mulher havia terminado seu café. Limpou calmamente os dedos no guardanapo, atirando-o depois sobre a bandeja, a qual ,por sua vez, foi afastada como um objeto usado e obsoleto. Chamou o empregado para retirar os despojos de sua primeira refeição e, dirigindo-se à janela enquanto acendia um cigarro, observou,em silêncio, a cena ensolarada que se passava no palco daquela manhã.
__ As opiniões__ pensou__ parece que estão equilibradas.Sem dúvida que a vida do Gomes está em primeiro plano. Isso nem se discute. Mas, por outro lado,não me sinto nem um pouquinho inclinada a dar o braço a torcer sem esboçar nenhuma reação.
O Durval entrou e retirou a bandeja mas parece que ela nem o percebeu, tão absorta estava em seus pensamentos.
Finalmente virou-se para os dois e disse:
__ Ao que tudo indica, vocês divergem em opinião e resolveram, então, deixar que a minha opinião prevaleça,não?
Pois bem, eu vou registrar a queixa para que a polícia analise todos os elementos e levando sempre em consideração a segurança do Gomes, aja antes ou depois de haverem solto meu marido, na medida das possibilidades.
Conservara-se de pé enquanto proferia o solene veredicto, após o que, sentou, apagou o cigarro no cinzeiro e ajeitando a blusa nos ombros, olhou para o dr. Martinho enquanto cruzava os dedos sobre a mesa.
Eu quero crer, Martinho, que esse seu amigo, o Wilson, vá dirigir pessoalmente todas as investigações em torno do caso...
__ Já tenho a palavra dele __ respondeu o médico.

O dr. Augusto franziu os sobrolhos, numa expressão de quem diz:” faça-se a tua vontade”. Sabia, porém, que uma reação antes da devolução do refém, seria o mesmo que condená-lo à morte. Após a devolução, seria uma ação quase inútil pois que as pistas estariam praticamente apagadas pela ação do tempo. Não atreveu, entretanto a opor-se. Afinal ele representava minoria e, além disso, até certo ponto, eles tinham razão. Tudo tinha que ser examinado minuciosamente. O que ele temia, era a possibilidade de fazer-se uma besteira,pensando estar seguindo uma pista. O preço do erro seria a morte de uma pessoa. Evitava até em pensar nisso...

__Bom...Vamos ver agora,__ continuou dona Ester__ o assunto do dinheiro para o resgate...
__Eu tomei a liberdade de cientificar o dr. Augusto do que ocorrera__atalhou o médico__ porque ninguém melhor do que ele poderia incumbir-se da parte financeira da coisa...
__ Sem dúvida,__respondeu dona Ester__ foi uma providencial escolha...quanto eles pediram mesmo?
__ dez milhões__disse secamente o dr. Augusto__ e só temos hoje, amanhã e depois para avisá-los que o dinheiro está pronto...
__ É um bocado de dinheiro e um prazo tão pequeno...__sussurrou dona Ester__ você já providenciou alguma coisa, Augusto?


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